Cultura alimentar do povo Ashaninka


Um grupo de chefs, jornalistas, fotógrafos e gestores ligado ao setor gastronômico e de hospitalidade do governo do Estado vivenciou, durante dois dias e meio, a primeira etapa de um projeto de pesquisa sobre a cultura alimentar dos povos indígenas no Acre.
A imersão foi na Terra Indígena Ashaninka, Aldeia Apiwtxa, no Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, de 31de julho a 3 de agosto.
O resultado da experiência é o registro da peculiaridade dessa cozinha, com seu rico universo de costumes e tradição.  
A pesquisa integra o programa de gastronomia coordenado pelo gabinete da primeira-dama, Marlúcia Cândida, e Instituto Dom Moacyr.  
O objetivo é elaborar narrativas sobre esses modos de cozinhar: “São fazeres que mostram uma forte identidade e raízes da cultura milenar das etnias que habitam o Acre”, define Marlúcia.
Todo conteúdo coletado servirá como base de informação para um minifestival sobre a culinária indígena, previsto para ocorrer em novembro, em Rio Branco. Será uma espécie de laboratório experimental para o Festival Internacional de Gastronomia de Baixo Carbono em 2018.




Cultura alimentar dos Ashaninka

O projeto é inovador por valorizar a cultura alimentar dos povos indígenas, a diversidade, o conhecimento tradicional e a segurança nutricional.
Toda a primeira etapa foi elaborada com um olhar compartilhado entre a liderança indígena Ashaninka, Francisco Piyãko, e Marlúcia Cândida.



Marlúcia dirigiu a pesquisa com o apoio da secretária estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, Concita Maia, e equipe.
Quem conduziu a pesquisa foi a chef Mara Alcamin, empresária do ramo gastronômico em Brasília. Mara já vem desenvolvendo, desde o ano passado, projetos de formação no Acre e difundindo a gastronomia acreana em vários espaços e eventos nacionais.
Em setembro deste ano o grupo vivenciará a cozinha indígena dos povos Yawanawá e Huni Kuin.

                                         Vivenciando o dia a dia das crianças ashaninka


A expedição

Chegar até a aldeia foi uma experiência única para o grupo. A Apitwtxa fica distante três horas e meia de barco partindo de Marechal Thaumaturgo, subindo o Rio Amônia.
A paisagem, riquíssima em sua diversidade, já se mostrou como fonte de inspiração, um preparo para a imersão que viria mais tarde.
Francisco Piyãko conduziu a viagem. Ao chegar à aldeia, a liderança indígena Dora Piyãko, irmã de Francisco, recepcionou o grupo e o levou até a casa de seu outro irmão, Bebito, cineasta indígena premiado.


                                                      Dora Piyãko recepcionou o grupo

Ocupados em seus afazeres, com seus trajes e indumentárias tradicionais, o povo Ashaninka revelou uma beleza e elegância surpreendentes.
O anfitrião Bebito, sua esposa Alzelina, os filhos e o irmão Benke aguardavam o grupo.  A primeira experiência com a imersão foi logo na chegada.
É sabido que as mulheres indígenas são as donas do conhecimento e sabedorias no preparo dos alimentos. São elas que cozinham e ensinam para as jovens.
O cenário era exatamente esse: Andreia, uma das cozinheiras, e Alzelina finalizavam o preparo da primeira refeição que seria servida ao grupo, e suas filhas ajudavam. Tudo elaborado na brasa.


                                            Alzelina e a filha no preparo da primeira refeição





Depois apresentaram os pratos. O cardápio foi peixe (curimatã) assado só na quentura da brasa, enrolado na folha de sororoca (“tsipana” em ashaninka). Esse modo de preparo é chamado de “pataraska”. O processo pode também ser com carne de caça, frango, palmito e outros. Seguido de caldo de peixe temperado com chicória e pimentão, macaxeira assada e cozida, além de farinha. 

Diálogos de saberes
Já pela noite, para compartilhar o desenvolvimento do projeto e as referências de cada um dos envolvidos, formou-se uma grande roda. Moises Piyãko e Benke, outras lideranças, juntaram-se ao grupo.
Em sua fala, Marlúcia explicou o projeto: “Entendemos que é muito importante saber do que os povos da floresta se alimentam, o que a floresta oferece, o que essas pessoas trazem na história de vida delas. Precisamos mostrar para a população que o alimento saudável é o que vem da floresta. A gastronomia de vocês é tão rica quanto a sua vestimenta [túnica] tradicional, a ‘kushma’ (pronuncia-se ‘cusma’), uma marca dos ashaninka. A comida de vocês vai atravessar o mundo com essa forte identidade”.
Já Francisco Piyãko afirmou: “Esse projeto estuda a riqueza de nossa cozinha tradicional e milenar. Estamos num momento de muitos avanços e receber vocês aqui e mostrar o que somos é uma forma que usamos para fazer chegar a nossa cultura em outro lugar. Precisamos manter o interno e dialogar com o mundo lá fora. ”, comentou.

Moises Piyãko também apresentou seu ponto de vista: “A gente precisa para alimentar o nosso povo e animais, preservar a nossa terra com segurança. Muitas vezes nos olham de modo diferente porque não aceitamos a caça [predadora] aqui, mas nós caçamos para comer porque temos o nosso trabalho de manejo. O plano é para sustentar o nosso povo, mantendo a floresta em pé. Manejamos o peixe, os quelônios, jabuti, até os caranguejos, todos os bichinhos que comemos para que tenham um tempo maior alimentando a gente”, disse.

Benke apresentou ao grupo o trabalho que vem desenvolvendo para busca do reconhecimento da medicina tradicional, ligando a ciência a essas práticas milenares. A ideia é criar um hospital para desenvolver o projeto.

“Não se trabalha somente a ciência e a química, mas a consciência do uso e a riqueza espiritual que existem sobre a vivência desses povos. Como que isso pode se integrar, como que pode ligar o homem à natureza e ao mesmo ele se descobrir para saber o que estamos fazendo no mundo, hoje tão cheio de desamor? Esse centro será como resgate e fonte para ajudar a humanidade se curar da doença da falta de amor”.
Em sua fala, Bebito descreveu todo o processo de fortalecimento da cultura de seu povo.
“Cuidar do nosso espaço, da educação, fortalecer a produção alimentar para a comunidade e aquilo que sobra ir para a merenda escolar. Temos frutas, batatas, peixes e muitos outros alimentos e preservar a nossa floresta é o que nos move”, disse.
O dia da pesca e almoço na praia
O dia seguinte foi para a pesca. Quatro barcos subiram o rio, às 6 da manhã, após o café com banana cozida, assada, macaxeira e mingau. Uma parte da equipe ficou na aldeia para registrar o preparo da caiçuma de pupunha, a outra seguiu para a pescaria. A primeira parada foi no roçado para colher a macaxeira e banana para o almoço.
Bebito foi o pescador. Surubim e curimatã lotaram a cesta e as canoas. Ali mesmo, naquela linda praia, Francisco avisou que iria ser preparado o almoço. Foi embaixo de uma árvore que dava sombra na praia que Iratxo, outra cozinheira, elaborou os pratos. As crianças ao mesmo tempo que faziam sua assistência no preparo, brincavam na praia.
O almoço foi servido numa tábua coberta com folha de bananeira. Macaxeira e peixe assados na brasa e pimenta siricana. “Isso aqui é comida de verdade”, disse Mara Alcamim.

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